1912: VITÓRIA NA SELVA

24/03/16 - 9:54

Artigo do procurador federal Ricardo Leite (PRG/ANTT)

 

artigo
Inauguração de trecho da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Bandeiras americana e brasileira unidas, simbolizando uma das maiores vitórias da cooperação internacional, engenharia, medicina e logística da história contemporânea.

 

Ainda este ano, o procurador federal junto à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), e jornalista sergipano Ricardo Leite lança o livro 1912: Vitória na Selva, no qual conta em 26 capítulos o que considera uma das mais fantásticas páginas da História do Brasil e do mundo moderno: o planejamento complexo, a construção improvável e a operação persistente da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré em Rondônia, na fronteira do Brasil com a Bolívia. Numa linha do tempo de dois séculos até o presente, o autor lança também luzes sobre a história ferroviária brasileira, realçando a atualíssima importância desse modal para o desenvolvimento do País.

Conhecida no jargão ferroviário pelas iniciais EFMM, a Madeira-Mamoré deu origem ao estado de Rondônia e à sua capital, Porto Velho. “Muitas cidades surgiram no entorno de estações ferroviárias, mas nenhuma outra capital ou estado brasileiros”, revela Leite, que morou seis anos em Porto Velho, foi procurador junto ao Iphan, é membro da Academia Rondoniense de Letras e tem uma filha portovelhense, a pequena Sofia Violeta, a quem dedica o livro. “Ensino a ela o valor dos trens na História e na vida de todos nós. Quem não sonhou algum dia com um veloz e simpático trenzinho de brinquedo?”.

Inaugurada em 1912, desativada para fins comerciais em 1972 e parcialmente tombada como patrimônio histórico nacional em 2006, a Madeira-Mamoré foi construída para cumprir o Tratado de Petrópolis (1903) e contornar 400 km de cachoeiras mortais dos rios Mamoré e Madeira, trecho que impedia o transporte, rentável e rápido, da valiosa borracha e de outros produtos da Bolívia e do Brasil, pela hidrovia até Manaus e Belém, e dali para o exterior. Atualmente, em duas dessas cachoeiras funcionam duas das maiores usinas hidroelétricas do Brasil, Santo Antônio e Jirau, ambas parcialmente em funcionamento.

“Em resumo, eu narro como 20 mil homens de cinquenta nacionalidades, a medicina mais moderna da época, 350 mulas argentinas e todo dinheiro do mundo, venceram a brutal e isolada selva amazônica, na construção de uma ferrovia impossível, que garantiu ao Brasil a soberania de uma vasta e rica porção do território amazônico, evitando, em consequência, uma guerra de fronteira”.

Falar da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, segundo Leite, é também revisitar uma época e personalidades históricas brasileiras e mundiais tão distintas como o empresário americano Percival Farquhar, o médico sanitarista Oswaldo Cruz, o diplomata barão do Rio Branco, o herói da pátria marechal Rondon, o jurista Rui Barbosa, o imperador D. Pedro II, o presidente americano Theodore Roosevelt e os presidentes brasileiros Hermes da Fonseca, Getúlio Vargas e Juscelino Kubistchek “JK criou a Rede Ferroviária Federal (RFFSA), assentou mais de 1000 km de trilhos, atingindo o auge da malha ferroviária brasileira no seu governo. Ele sonhava com um Brasil desenvolvido de estradas, carros e muitos, muitos trens”.

A Madeira-Mamoré rendeu dezenas de livros e a Mad Maria, a mais hollywoodiana minissérie da Globo (2005). Segundo o autor, a farta bibliografia disponível e a longa pesquisa empreendida em banco de dados virtuais de bibliotecas, arquivos públicos e jornais do Brasil, Inglaterra e EUA, permitiram iluminar esse capítulo ainda pouco conhecido da História da ocupação da Amazônia, da medicina tropical e das relações internacionais brasileiras. “Posso garantir que o leitor estará embarcando, junto com personagens notáveis, numa viagem fantástica pelos trilhos de uma das mais extraordinárias ferrovias já construídas no mundo, desde seu nascimento, patrimônio da humanidade. Uma aventura emocionante de coragem, cooperação entre as nações e vitória sobre o impossível”.

Marcadores: